Trabalhando com a resistência

Na psicanálise o aparecimento da resistência tomará aspectos diante de suas várias modalidades de apresentar-se, assim como tomará aspectos do quadro de onde ela se origina. Freud fazia referência à resistência enquanto um empecilho à hipnose na sua descrição pormenorizada do livro Hipnotismo, de August Forel, onde escreve que “essa influência apenas raramente se efetua sem resistência da parte da pessoa hipnotizada”. Em seu artigo Hipnose, de 1891, afirma que “sempre que surge uma intensa resistência contra o uso da hipnose, devemos renunciar ao método e esperar até que o paciente, sob a influência de outras informações, aceite a ideia de ser hipnotizado”.
A resistência possibilitará, quando amparada na transferência, o trabalho analítico. Durante muito tempo acreditou-se que as neuroses narcísicas não seriam passíveis de constituir uma situação transferencial, deixando-as dessa maneira externa o tratamento psicanalítico, hoje já não se mantém essa postura na maioria das linhas dentro da psicanálise, embora se saiba que a transferência nesses casos possui características diferentes das caracterizadas somente de mecanismos neuróticos.
O surgimento da resistência se dá sempre de maneira astuta, ela vem aos poucos vinculada ao material que surge a partir da transferência, como explica Freud, dizendo que quanto mais as associações se aproximam da fortificação defendida pelo recalque, mais os exércitos da resistência vão se tornando mais fortes e mais presentes na relação analítica.

Pode-se considerar também que, em uma conjectura transferência positiva, se apresente muitas vezes aspectos de resistência, como uma exorbitante cooperação que se nomeia de aspectos da transferência erótica, como no caso dos padrões obsessivos. Há também, nesse tipo de padrão muito de resistência, esses pacientes extremamente colaboradores e obedientes das regras contratadas, não faltam, produzem sonhos, pagam sempre em dia, fazem relatos que mostram sempre avanços etc, mas na verdade avançam muito pouco em mudanças significativas do seu quadro. Estabelecem tal magnitude de gratificação para o analista que esse pode acabar imobilizado por ela.
A resistência será apresentada de maneira hostil nas chamadas neuroses narcisistas, algumas vezes carregada de perseguição erótica, outras como uma “reação terapêutica” negativa, piorando a cada nova abordagem correta de seu psicanalista e outra vezes se apresentando como um silêncio repleto de não ditos e segredos altamente acometidos enquanto zona sem luz; ou ainda no esconderijo de um discurso linear, abstraído totalmente do afeto que deveria sustentá-lo, se apresentando então, como palavras vazias, rejeitadas e jogadas a esmo.
A resistência atuará principalmente dentro do setting terapêutico sempre como uma forma de lograr a “regra fundamental”, evitando dessa maneira o livre curso das associações, desta maneira pensamos ser tarefa do trabalho analítico, enquanto ela atua, obter meios de minimizá-las ou ainda de acompanhá-las da melhor maneira que puder ser encontrada, dentro das limitações que nos fornece o enquadre (regras e combinações) daquele contrato terapêutico.
O que atualmente percebe-se como uma variação desse entendimento, diz respeito à não considerar tanto a pressa em enfraquecer os mecanismos no aparecimento da resistência dentro do processo analítico, mas de alguma maneira, tentar uma aliança para que se trabalhe a partir dela em direção ao entendimento do recalcado, entendê-la como o que é, material inconsciente, presente no trabalho e que deverá ser aproveitado.

Manter essa estratégia é algo bem diferente do que foi dito sobre esse fato clínico inicialmente, que seria algo que simplesmente atrapalharia o tratamento, que deveria ser sempre debelada aos primeiros sinais. Hoje sabemos que não será bem assim que encontraremos o melhor caminho para o acesso ao Inconsciente. A resistência vem sempre investida de grande carga, contra-catéxis, em sua representação legítima, segui-la é como colocar um investigador disfarçado à espreita de um suspeito. Essa seria uma proposta da técnica bem mais próxima ao que hoje se entende como resistência.
Consideramos hoje, discutir os mecanismos da resistência algo que aponta para um questionamento e modificação de alguns padrões muito aceitos dentro do que se chamaria aplicação da técnica em Psicanálise.
O entendimento da resistência do organismo à doença esboçou uma síntese com a concepção neurológica, configurando uma unidade que, por sua vez, realizaria uma espécie de mescla com a noção de resistência da doença, formando a concepção psicanalítica que poderia ser considerada como uma resistência do paciente/organismo/doente. Em paralelo a tudo isso, certamente a resistência enfrentada na prática da hipnose também teve uma influência bem significativa.

 

#AlessanderCapalbo

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