OS SONHOS E A ANÁLISE JUNGUIANA

Na teoria Junguiana os sonhos são aspectos mais recorrentes em seus estudos da psique. Os sonhos são expressão direta da atividade psíquica do inconsciente, a tentativa de analisar e interpretar os sonhos é, para começar, um empreendimento, teoricamente justificável do ponto de vista cientifico. Seus estudos mais importantes incluem essa via de acesso aos conteúdos inconscientes da mesma forma que um astrônomo se utiliza do telescópio para ver o universo. Ele o explorou de várias formas sobre pontos de vista nunca antes experimentados. Dos teóricos que se dedicaram ao estudo dos sonhos, ele foi o que mais se utilizou de estudos experimentais para o desenvolvimento de suas afirmações.

Em 1902, antes de avistar-se com Freud, Jung, então um jovem médico de 27 anos, estabelece algumas considerações sobre os sonhos em seu trabalho Estudos Psiquiátricos, onde considera que os sonhos apresentam à consciência um simbolismo daquilo que nunca é admitido. Neste particular, que se refere à forma como o sonho se apresenta, ele parece querer mostrar, com outra linguagem, o que Freud chamava de conteúdo latente dos sonhos.

Acredita-se que os sonhos possuem um significado, mas que estes apontem para o complexo reprimido. Complexo, na visão junguiana, é um grupo de significados e imagens inconscientes relacionados entre si, através de associações se idéias, e de uma grande quantidade de energia psíquica, em torno de um núcleo central constituído por um arquétipo. Arquétipos são estruturas virtuais responsáveis por tendências do comportamento.

Em 1916, Jung, coloca os arquétipos como estrutura que se manifestam de forma decorrente nos sonhos. Na visão Junguiana, as pessoas, os elementos e as situações que aparecem no sonho são de grandeza subjetiva do sujeito e quase sempre estão relacionadas ao próprio sujeito, sendo assim, não representam pessoas ou situações reais como nos diz Freud. Além disso, o sonho, para Jung, tem a função compensatória.

Sendo assim o sonho compensa a visão limitada e desvios do ego ao registrar e aflorar o que não foi registrado. A forma compensatória dos sonhos é individual e se manifesta de acordo o caráter de cada um. Existem duas maneiras de se ver o sonho como atividade compensatória. O sonho compensatório, em primeiro lugar, como o próprio nome diz, pode compensar distorções temporárias na estrutura do ego e assim dirigir o sujeito a um amplo entendimento das suas atitudes e ações.

Em 1921, Jung coloca que os sonhos têm a facilidade de fazer reaparecer a realidade primitiva da imagem psíquica, além da faculdade de antever o futuro de forma construtiva objetivando o desenvolvimento psíquico. Jung (1984) distingue dois tipos de sonhos: os grandes sonhos e os pequenos sonhos. Os chamados grandes sonhos são provenientes das camadas mais profundas do inconsciente e geralmente contém imagens mitológicas e arquetípicas. Já os pequenos sonhos provêm da experiência pessoal ou subjetiva, ou seja, de uma camada mais rasa do inconsciente onde ocorre às flutuações do balanço psíquico.

Há também os sonhos reativos que derivam de situações traumáticas graves e reproduzem uma situação traumática vivenciada até que seu conteúdo seja destituído da intensa carga afetiva associada ao trauma e possa ser reintegrado ao psiquismo. Marie-Louise Von Franz (1993), uma psicoterapeuta analítica, pesquisadora e escritora da Alemanha, mas ativa na Suíça, importante continuadora do trabalho de Carl Jung, destaca que nos sonhos, enquanto à forma, se percebe uma estrutura composta por quatro partes: a) a primeira onde se apresenta o local, os personagens e, quase sempre, a situação inicial do sonhador; b) o enredo e a trama são apresentados na segunda parte; c) na terceira fase é onde ocorre um acontecimento importante ou o clímax e d) caso exista, traz uma solução ou nos mostra a situação final.

Jung (1921) nos coloca sobre a sua forma de interpretar os sonhos no plano do sujeito: Quando falo de interpretar um sonho ou fantasia no plano do objeto, quero dizer as pessoas ou situações que neles aparecem são objetivamente reais, em oposição ao plano do sujeito em que as pessoas ou situações nos sonhos se referem exclusivamente as grandezas subjetivas. A concepção freudiana dos sonhos está exclusivamente no plano do objeto, uma vez que os desejos nos sonhos se referem a objetos reais ou a processos sexuais que incidem na esfera fisiológica, portanto extrapsicológica.

A interpretação ao nível do sujeito traz uma ajuda a fim de que o sonhador corrija suas atitudes inadequadas. Em “Aspectos Gerais da Psicologia dos Sonhos”, 1928, Jung acrescenta que para se entender o sentido de um sonho deve-se perguntar aos pacientes quais elementos estão associados à imagem onírica. Em seguida, deve-se questionar o porquê dessas associações e não outras, considerando que sempre existe mais de uma causa.

No livro “Análise dos Sonhos”, Jung (1971) completa: Toda interpretação é uma mera hipótese, apenas uma tentativa de ler um texto desconhecido. É extremamente raro que um sonho isolado e obscuro possa ser interpretado com razoável segurança. Por este motivo, dou pouca importância à interpretação de um sonho isolado.

A interpretação só contrai uma relativa segurança numa série de sonhos em que os sonhos posteriores vão corrigindo o que foi percebido de incorreto nas interpretações anteriores. Na visão junguiana os sonhos não devem ser interpretados de maneira concreta. As imagens oníricas expressam a subjetividade, são partes constitutivas da nossa mente e são fatores subjetivos que se agrupam numa imagem por motivos internos desconhecidos. O analista, na compreensão do sonho, não deve reduzir o sentido do sonho a uma doutrina e deve sempre buscar evitar a visão unilateral onde só o analista sabe do significado do sonho. O paciente não deve ser instruído acerca de uma verdade, mas evoluir até ela.

De acordo com Jung (1971) “na assimilação dos conteúdos oníricos, é de extrema importância não ferir e muito menos destruir os valores verdadeiros da personalidade consciente, pois, de outra forma, não haveria quem pudesse assimilar”. Ainda em 1945, Jung, nos coloca no livro “Da essência dos sonhos” que o analista deve tomar cuidado com interpretações agressivas e sempre terem uma postura de ignorância diante o significado de um sonho e novamente realça a importância das associações para se alcançar o sentido do sonho.

#AlessanderCapalbo

 

 

 

REFERÊNCIA

 Jung, Carl Gustav, Vol II, Ab-Reação, Análise dos Sonhos, Transferência, Vozes, 1973, Rio de Janeiro-RJ

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