Sexualidade em Freud

A partir acerca das neuroses, Freud inicia seus estudos sobre as questões acerca da sexualidade, talvez seja um dos maiores estudiosos, no que diz respeito à sexualidade e as questões que a envolve, principalmente as neuroses. Daí o ditado popular “Freud explica”. Para Freud a sexualidade vai muito mais além da questão genital, e principalmente sua influência e importância em todas as atividades humanas. Principia com um trabalho sobre o estudo da homossexualidade (inversão sexual), classificando-a em três tipos: invertidos absolutos (objeto sexual só pode ser do mesmo sexo), anfígenos (objeto sexual pode pertencer a ambos os sexos) e ocasionais (em função de condições externas).

Afirma também que a conduta sexual se define após a puberdade em função de aspectos constitucionais e acidentais (como a falta de um pai forte na infância) e que existiriam diferentes escolhas homo-eróticos: com relação ao objeto e com relação ao sujeito (teorias de Ferenczi).

O autor também salienta que as perversões fazem parte da vida sexual normal e as classificam em transgressões anatômicas (regiões do corpo destinadas a união sexual que não pertencem ao aparelho sexual como lábios, boca, ânus – supervalorização do objeto sexual), fetichismo e fixações de alvos sexuais transitórios.

Também afirma que o fetichismo teria origem na infância, sendo que o fetiche poderia funcionar como uma “lembrança encobridora” de algo esquecido e também estaria relacionado às teorias sexuais infantis (o pé, por exemplo, substituiria o pênis na mulher).

Descreve a pulsão escopofílica, prazer de ver, como pertencente às pessoas normais, mas que pode tornar-se patológica quando se restringe exclusivamente à genitália e nos casos de voyeurismo e exibicionismo (olhar e ser olhado – alvo sexual apresenta-se na forma passiva e ativa).

Para Freud o sadismo, por exemplo, está presente em pessoas normais, pois para ele, a sexualidade exibe uma parcela de agressão, principalmente acerca da satisfação e o que constitui sintomas patológicos é a exclusividade da satisfação da pulsão sexual a este elemento agressivo, “ou seja quando há características de exclusividade e fixação, então nos vemos autorizados, na maioria das vezes, a julgá-la como um sintoma patológico” (p.153).

 Com relação ao masoquismo, questiona se este seria primário ou se surge de uma transformação do sadismo, em que o sadismo se volta para a própria pessoa que passa a ocupar o lugar de objeto sexual (numa nota de rodapé de 1924 passa a reconhecer o masoquismo primário – o feminino e o moral).

“O sadismo e o masoquismo ocupam entre as perversões um lugar especial, já que o contraste entre a atividade e passividade que jaz em sua base pertence às características universais da vida sexual” (p.150).

Freud constata que a pulsão parcial, na maioria das vezes, aparece como pares opostos da pulsão (masoquismo-sadismo, feminino-masculino, passivo-ativo, amor-ódio, exibicionismo-voyeurismo) e salienta que isto tem grande importância teórica (ambivalência).

“As diferenças que separam o normal do anormal só podem residir na intensidade relativa de cada componente da pulsão sexual e no uso que lhes é dado no decorrer do desenvolvimento” (p.194).

 Freud afirma que nesta manifestação sexual a pulsão é auto-erótica, pois, a princípio, é desprovida de objeto e voltada para o próprio corpo: “Está claro, além disso, que o ato da criança que chucha é determinado pela busca de um prazer já vivenciado e agora relembrado” (p.171).

A partir daí define três características principais da sexualidade infantil: origina-se a partir de uma função somática (a satisfação foi vivenciada antes para que se tenha a necessidade de repeti-la em função de um aumento da tensão), são auto-eróticas e o alvo sexual se acha sob o domínio de uma zona erógena (que são estimuladas perifericamente).

Freud enfatiza que os distúrbios intestinais na infância reforçam esta zona com muitas excitações e aponta para o prazer que vem acompanhado da defecação assim como o sentido das fezes para a criança pequena: representa o próprio corpo, um presente (mais tarde nas teorias sexuais infantis passa a ter o sentido de um “bebê”).

 Com relação à zona genital, associa os órgãos sexuais à micção (aparelho urinário funcionaria como “tutor” do aparelho sexual ainda não desenvolvido) e aos cuidados com o corpo infantil feitos pelo adulto (fonte de grande excitação e satisfação), apontando o quanto são estimulados desde o início, o que justificaria a futura primazia dessa zona erógena na atividade sexual.

A masturbação (onanismo) aparece como a possibilidade de realização desta atividade sexual infantil e está ligada ao recalcamento, à amnésia com relação à infância (sentimento de culpa decorrente desta atividade). O autor também cita a pulsão escopofílica (saber), em que a criança desenvolve uma atividade investigatória a partir de questões práticas de sua vida (como, por exemplo a questão a respeito da origem dos bebês quando se depara com o nascimento de outra criança).

No entanto, estas pulsões passam por etapas que culminam na sexualidade adulta, na qual as pulsões se unem numa organização sólida a serviço da função reprodutora e com a finalidade de atingir um objeto sexual. Freud menciona algumas fontes de excitação que provocam um prazer erógeno: excitações mecânicas (agitação ritmada do corpo, movimento), atividade muscular (como lutas corporais), processos afetivos intensos (situações assustadoras, situações de dor, alastram-se para a sexualidade) e trabalho intelectual.

Na puberdade as pulsões parciais se organizam, as zonas erógenas passam a se subordinar à primazia genital e a pulsão sexual (libido) que era, principalmente, auto-erótica (libido do ego ou narcísica), buscam o objeto sexual a serviço da função reprodutora (libido do objeto).

Freud salienta que tais transformações acontecem concomitantemente às mudanças físicas da puberdade (em especial as alterações dos genitais), que proporcionam a obtenção do prazer de satisfação da atividade sexual – antes existia apenas o pré-prazer advindo da excitação das zonas erógenas (nas perversões haveria uma fixação no pré-prazer).

Todas as mudanças da puberdade culminam numa diferenciação sexual cada vez maior, já que os dois sexos terão funções distintas – Cabe aqui pontuar que Freud faz um questionamento a respeito do que seria masculino e feminino, dizendo da complexidade destes conceitos (noção de bissexualidade) e acaba privilegiando a noção de passividade e atividade. As zonas erógenas seriam homólogas (clitóris e glande), mas o recalcamento afeta mais a sexualidade da menina (eliminaria a sexualidade masculina – clitoridiana) reforçando as inibições sexuais.

Outro aspecto que Freud levanta é que na puberdade ocorre um afrouxamento dos laços com a família (inclusive um desligamento da autoridade dos pais), já que a proibição do incesto impele o jovem a procurar objetos sexuais que não sejam seus parentes (cabe ressaltar que as influências infantis, as fixações incestuosas da libido sempre influenciam nas escolhas amorosas, pois são precursoras da organização genital).

 

#AlessanderCapalbo

 

Bibliografia: Freud, S.(1905) Três Ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: Obras psicológicas completas: Edição Standard Brasileira. Vol. VII. Rio de Janeiro: Imago, 1996

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *